Sobre Inês.. e sobre sentimentos!

Inês Martins
Escritora, poeta, artista, pintora, contadora de piada, conversadeira, extrovertida, estranha, negra de alma, de corpo, de espírito, de descendência, de nariz, de cabelo enrolado, de pai. Honesta, viva, alegre, alegre, alegre, alegre, alegre...
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Sexta-feira, Julho 10, 2009

De volta às palavras antigas.


A moça amarela olhou-se no espelho anti-reflexo. Viu um rosto jovem, transfigurado em amarguras antigas e talvez até desnecessárias.



Não sentiu pena de si mesma. Não sentiu pena de nada, nem medo nem angústia. Era como se um vazio se instaurasse no peito, uma tristeza torturante, uma vontade de correr das próprias conclusões.




As palavras, antigas e doloridas teimavam em voltar. Olhavam-se abertas, mafiosas, já em ponto de tiro. Mas feriam apenas por existir; apenas isso. Palavras malditas e ao mesmo tempo inevitáveis.



A menina amarela lembrou-se de não ter esperança nenhuma diante do futuro. Lembrou-se também do grito guardado que às vezes explodia, mandando quem estivesse perto aos diabos. A moça amarela era consciente do seu lado puro e do seu lado demoníaco; e tinha medo dos dois. Mais da vida que da morte.



Abriu um caixote de lembranças antigas. Abriu seu diário velho, com mais coisas tristes que alegres e sentiu uma leve inveja daqueles cujas felicidades ulrapassam as amarguras. Era só uma menina. Não, não era mais uma menina de doze anos - era agora uma mulher que não encarava as próprias fraquezas nem tampouco almejava abrigo em certezas que não tinha.



A solidão não deixou de ser avassaladora. Não sabia se afastava as pessoas ou se elas se afastavam. OU se todos estavam ali: estáticos; em seus lugares estúpidos, à espera do mesmo milagre que ela esperava. Não havia milagres, nem multidões, a não ser o mar de rostos que não chegou a ver, trancada em seu próprio egoísmo.



A moça amarela decidiu que o suicídio era um mal desnecessário, já que se sentia mais morta em vida do que poderia ser em outro mundo. Decidiu que não gostava de sangue, nem de fogo, nem de dor e não sabia de outra forma de desaparecer deste mundo, definitivamente. Acovardou-se diante de suas constatações absurdas. Sentiu o fel amargurar-lhe a boca e dormiu mais um sono borracha, a fim de apagar as lembranças do dia. Mas as palavras continuavam aturdidas.


Verdade e ternura

De repente brotou uma esperança descabida,
Um verso tímido,
Uma vontade de sorrir,
de ansiar por uma possibilidade.



De repente o olhar deixou de ser perdido,
o beijo deixou de ser seco,
o coração deixou bater ser calmo,
o rosto ruborizou-se.


De repente o verso rasgou a folha límpida,
E os dedos não corresponderam à memória.
Silêncio.
Risadas dentro de si.
Vontade de sorrir,
Pequeno paraíso...

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Olhares interiores

O olhar abriu um verso
Olhar de novo pra dentro de si.
Olhar em busca brusca do que restou,
De olhares antigos;
Sob novos ângulos.

Percorreu pedaços,
Mas moça não viu.
Nem resquícios de menina,
Apenas um refúgio de rosto,
Gosto passado de muito tempo.

O olhar sentiu sublime
O toque da própria piedade.
Olhou corpo,
Olhou pensamentos,
E por fim sentiu-se dono.

Olhar de retratos, pasmos;
Estáticos, numa pose que se foi.
Olhar de novo,
Por outro ângulo.

O olhar se viu, sem medos,
Sem segredos,
Sem santidade alguma.
Por isso mesmo sereno.

O olhar sentiu, sublime
Amor por si;
Apesar da lágrima que caiu,
Um pedaço de céu.

O dia que me perdi de todos.


Há tempos estava destoando da realidade. Cada um seguia seu rumo, e eu ousei não seguir rumo algum, certa de que em dado momento o rumo apareceria. Já estávamos com as relações estremecidas.

Não retiro de mim a culpa pelo estremecimento; nem tampouco culpo apenas a mim mesma pela distância de todos. Certo é que, à sua maneira, foram se afastando, aconchegando suas memórias em novos rumos e fui ficando... naquela estrada sem bases sólidas que se chamava família.

Encontramo-nos numa de minhas visitas obrigatórias. No início eu sentia necessidade daquelas visões. Sentia uma saudade intergritante dentro de mim. Precisava vê-los, ouvi- los, sentir o cheiro de todos, como se estar perto atenuasse todos os meus problemas. Mas ocorria o inverso. Tão logo os via, mais sentia a angústia de morar a muitos quilômetros daqueles a quem considerava toda a vida.

Estive ali, certa de ser amada e querida em todos os ambientes. Porém rarearam-se as visitas, e com elas, o espaço na casa. Pouco a pouco minha presença foi invadida por novos móveis, nova ordem dos moradores e logo perdi o direito de opinar sobre os ocorridos domésticos. Em menos de um ano não pertencia, definitivamente àquele lugar.

As pessoas foram se distanciando. Talvez porque se acostumaram com a minha ausência, e decerto seria menos doloroso estar sem mim, mesmo quando estivesse ali. Deixei de ser um deles.

O espaço que teríamos pra nós foi se transformando num imenso vazio. Comecei a não ver mais os rostos dos meus familiares nas minhas orações noturnas, certa de que a sua ausência deveria ser completa. Passei a não ser bem vinda naquele que fora o meu refúgio. E nesta certeza, também quis que cada um daqueles a quem amei, embora à minha maneira, como minha própria vida; deixassem de freqüentar meus pensamentos.

Não posso dizer que me perdi de todos num dia só. Fomos nos perdendo pela falta de fé em nós mesmos, pela incapacidade de lidar com dramas pequenos, mas, especialmente, pelas decepções que causamos e que sentimos um pelo outro.

Tive medo de que a solidão me partisse em mil, mas foi o inverso. Me tornou num pedaço pequeno de dor ardida, insolente, sombria. Não me ligaram mais. Talvez eu tenha ligado algumas vezes, por obrigação. Aquelas ligações eram pedidos de socorro doloridos, que os outros nem ousavam querer interpretar. Nem a mãe foi poupada. Talvez ela, a quem eu devia minha ternura que nunca cheguei a ter, devesse ser poupada. Mas foi justamente ela minha mais doce conjectura. Ela também não enxergou meus pedidos de socorro. Nem quis socorro pedir.

Questionei sua religiosidade. Questionei seu silêncio, frente à sua religiosidade. Talvez ela rezasse em silêncio pra que Deus abrandasse minha rebeldia. Talvez eu fosse o rebelde da relação. Mas talvez, também, fosse a mais ferida.

Lembrei de muitos momentos em que estive sozinha. Em nenhum deles me sentia como de fato, estava agora – sem lugar pra voltar. Sem chance de um ataque de rebeldia, em fugir de casa morando só. Não haveria lugar nenhum pra onde voltar. Não haveria nenhum braço aberto.

Não sentiu pena de si mesma. Sentiu pena tampouco desta constatação ingênua e tardia. Detectou: estava plenamente só; não como previra, mas como agora, de fato, enxergava-se. Desligada de todos. O elo está partido.

Sábado, Junho 13, 2009

Dia dos namorados.


Era dia dos namorados. Um dia como os outros, deveria ser. Um dia dos namorados como os outros. Aquela sensação de solidão, ou de tristeza, ou mesmo de desilusão diante da data.

Olhou-se no espelho. Olhou os olhos fundos e gastos pelas imagens que fazia de si mesma. Não sentiu saudade de ninguém. Nem da pessoa que fora. Não sentiu saudade de nada. Queria renovar-se.

Faça alguma coisa por si mesmo. Faça alguma coisa agora mesmo. Uma voz imperativa e confusa. Uma voz certa, apesar de confusa. Sentiu certo aperto dentro de si, daqueles em que se sente quando alguma coisa vai mudar. O aperto das mudanças. Sentiu menos vergonha de si, mais orgulho de seus feitos. Mais certeza de suas vontades. Menos pena das coisas que não ocorreram.

Suspirou fundo a sua última crueldade. Do homem a quem nem sequer se despediu, porque a amava demais. Teve vontade de ser livre e amada na medida certa. Teve vontade de fazer mais parte do mundo dos compreendidos e tranqüilos. Aqueles que deitam suas cabeças em travesseiros macios e dormem de verdade.

Lembrou dos namorados. Dos fondues, do vinho, da lágrima depois do beijo. Lembrou do único noivo a quem devia ter tido... Ao qual traiu numa noite, desnecessariamente. Lembrou do homem com quem viveu uma vida inteira em dois anos e meio. Não sentiu pena de nenhum daqueles finais. Não sentiu falta de nenhum daqueles corpos. Angustiou-se, da época que dependia de terceiros pra garantir seu sossego. Angustiou-se por agora não precisar mais de ninguém, por dormir bem sozinha. Por se arrumar pra si mesma, depois de uma semana exaustiva no trabalho. Por se arrumar pra si mesma, depois de um feriado enorme digitando coisas.

Sentiu pena das pessoas que não têm família. Sentiu-se uma delas; pessoas que não têm família. Mas isso talvez nem tenha incomodado. Não mais. Depois da geografia, das discussões, dos silêncios. Todas lembranças muito antigas, muito antigas.

A lembrança mais próxima que tinha era de si mesma. Olhou nos livros, no quarto, na casa vazia. Olhou pra desconfiança em participar a alguém a sua nova vida. Desprovida de passado, de conhecidos. Todos pareciam pessoas sem rostos, em retratos manchados pelo tempo. Todos pareciam folhas que caem de uma árvore enorme, levados pelo vento. Todos desaparecidos... de dentro de si.

Domingo, Junho 07, 2009

Poemas para um homem do acaso


Um homem.
Um homem, definitivamente,
diferente de todos os outros.
Altivo.
Doce.
Sutil.
Doce.
Enigmático,
Doce.
Seria apenas prejuízo da minha memória,
Eternecida pelos heróis
Dos Romances que não vivi?

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A alma brindou doces anos da nossa história não vivida. Champanhe aos nossos sonhos, desintegrados pela desconfiança. Borbulhas às lágrimas, ditas apenas por mim, ao meu travesseiro fatigado e confuso. Sucesso à nossa indiferença cotidiana. Mas lá, ao longe, os nossos olhos se cruzaram, marejados da paixão; eternecida na lembrança intempestiva dos suspiros e saudades...
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Namorado:

Um dia qualquer,
Um domingo.
As mãos, pousadas no peito,
Daquele que suspira.

O coração bateu, inquieto pela tua intermitência,
Pela minha calmaria,
Por nosso gostar distinto,
Porém não distante.
Amamo-nos, dali em diante.
Namorado,
Namorada...
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Solidão:
Vontade de estar onde a geografia não leva.
Vontade de ser o que a física não permite,
Desejo de comer o que a química não garante.
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Saudade:
Mistura de desejo,
Vontade,
Ânsia,
Do que deixou de estar,
Do que não devia ser,
Mas existe.

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Mulher:
Fragilidade é seu toque, ô.
Aquieta essa tua astúcia.
Apaga essa tua vontade de dizer,
O que ele queria ter dito.

Mulher:
Vá lavar a louça, ô,
Que o homem te desacredita.
Larga esse livro,
Que te encanta e acalenta,
E te faz ser tantas,
Sendo apenas uma.

Esquece estas palavras, ô.
Vá escutar marido,
Vá curiar menino,
Vá maquinar-lhe um mimo.

Mulher, mulher,
Aquieta essa tua vontade de ser tua,
Que teu nariz é dele,
Deixa ele pensar que é.

Porque a solidão é dura,
A solidão é dura, ô.
Mais dura que essa sua cama,
Vazia de barba na nuca.

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Um homem ao acaso... Estava ali. Ocasionalmente e despretensiosamente, esteve ali. Com sua meia hora de boa conversa, me salvando do tédio e de mim mesma. Esteve ali, pra me apontar um caminho, e pra dizer que existem sim, pessoas interessantes, nem que estejam do outro lado do mundo. Mas é um homem ocasional, que pode ter sido apenas a bandeira salva-vidas no meio do nada, num nada tão vazio, que é mesmo essa vida de Meu Deus. Estou desacreditando da vida. Do meu trago de vida. Da minha ânsia de viver.

Desacreditando da presença real deste homem, da presença hipotética de outros futuros homens, da minha capacidade de voltar a gostar. Desacredito mesmo da minha conjectura, tão sugestionada e questionável. Desacredito mesmo da minha existência. Da vida e da morte e de outras situações.

Nego a mim mesma. Não que seja praxe negar, mas nego mesmo a pessoa que julgo ser dentro de mim em virtudes, e que em verdade, não sou. Nego essa minha capacidade contraditória de convencer, pessoas não-convictas dos seus ideais. Nego, por assim dizer, o que não se faz verdade. Nego, por não querer ver virtude naquilo que não me surpreende.

Um homem, ao acaso, apareceu. Pra reafirmar que sua aparição não garante nada. Nem mesmo sua presença. A sua aparição não garante nem mesmo a calmaria que deixou de rastro, já que permanece a dúvida de se um dia voltará.

Sexta-feira, Março 13, 2009

Dúvidas...

Raiva?
Medo?
Uma dor incoerente,
Uma constatação absurda;
Um fato.
Será ciúme?
Imaturidade?
Fato é que eu já sabia conviver com a minha solidão sozinha.
Mas não sabia, ainda;
Conviver com a minha solidão contigo.