Domingo, Maio 20, 2012

Decepção

A decepção chegou sorrateira. Aliás, não tão sorrateira assim. De repente cessaram todas as chances de reconciliação que haviam. Ela aguardava uma reação de carinho, espontaneidade. Esperava que ele gostasse da sua presença, aguardava um afago. As semanas vinham turbulentas e ela, mais uma vez, sustentava a solução de todos os problemas. Não podia contar com ele. Não podia contar com ele.
Via-o como um adolescente, alguém que não se acostumara à vida adulta, talvez por não sentir necessidade. Via a situação dos dois como um erro irremediável. Agora não havia como contornar os acontecimentos. Sentiu mais ainda sua dispensabilidade. Não era tão importante, nem sequer era considerada como alguém importante.
Depois do sexo e de uma noite maldormida sentiu-se como uma messalina. Depois que casara acalentara o desejo de fazer amor. De sentir-se amada, de perceber que o desejo era algo secundário em detrimento do romantismo, do prazer com a presença do outro.

Mas há tempos a que um dia fora ilusão figurava-se como triste realidade. Nem romance, nem carinho; apenas obrigações domésticas. Pagar contas, servir o marido, tomar remédios e mais remédios pra dormir. Rotina. E o romance deixara de ser personagem dos seus sonhos para habitar apenas os livros, romances do Século XIX.

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Sexta-feira, Maio 11, 2012

As sem-razões de escrever

Participando de um Workshop recebi a proposta de parafrasear o poema de Drummond: As sem-razões do amor presente no blog: http://www.pensandociberliteratura.blogspot.com.br/. Resolvi aceitar o desafio, e eis, então, as sem-razões de escrever....


As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.



Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

(Drummond)



As sem-razões de escrever


Eu escrevo porque escrevo,
Não precisas ser objetivo,
e nem sempre compreendido.
Eu escrevo porque escrevo.
Escrever é estado de graça
e com rispidez não se conquista leitores.

Escrever é dado de intimamente,
é semeado no ventre,
na alma, no devaneio.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu escrevo porque não sou
bastante ou demais a mim.
Porque escrever não se aprende,
não se conjuga nem se adivinha.
Porque escrever é transbordar a alma,
Emaranhar-se em si mesmo.

O verso é primo do sonho,
e pela escrita se eterniza,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante lido vivifica-se.

(Inês Martins)



Domingo, Maio 06, 2012

Domingo, mais um deles...

Acordei sem inspiração alguma. Alguma coisa aconteceu nesse meio tempo em que pisquei, olhei nos seus olhos e nossos olhos não se encontraram mais.


Imagens e palavras são contraditórias. Sinto a angústia só minha.

Tantas coisas que li em livros e formularam na minha mente as fantasias que hoje vivo apenas em flashes indefinidos do passado.

A vida real é outra coisa.

A vida real me mostrou outras possibilidades, diferentes daquelas com as quais sonhei. Não sei se sonhei devidamente. Não sei se sonhar é devido.

Escrevi uns versos que me descreveram uma vida inteira, todos no passado.
Talvez eu não saiba viver o presente. Eterna nostalgia...



Sábado, Maio 05, 2012

Barulho insanamente resolvido

A mulher reclamona previu novos dissabores em seu sábado intocável. Era já fim de tarde, como todos os fins de tarde sabadais. Aquele som ensurdecedor atrapalhando sua soneca, seus estudos, seu descanso.


Todo sábado a sua rotina era a mesma: pedir educadamente para que o grupo de arruaceiros que se alocavam em frente à sua casa para abaixarem o som. Era sempre educada, gentil e cortês, mas deixava clara a sua indignação em ter que ir lá fazer este penoso serviço.

"A minha liberdade acaba quando chego à liberdade do outro", pensava. E, de fato, sentia que os vizinhos tinham todo o direito de ouvir seu som, em volume audível. Mas aquele barulho que balançava as janelas de sua casa era de mais. Irritava-a sobremaneira, além de impedir que fosse executada qualquer atividade em sua residência. Não podia ver tv, ouvir suas músicas nem tampouco ler - atividades que a apraziam muito.

Reservava-se, então, a ficar quieta, imóvel, diante da porta da sala, contemplando o barulho como forma de protesto. E nesses momentos divagava sobre a miséria de espírito à qual se reservavam alguns seres humanos menos instruídos, que não percebiam o quanto incomodavam todo sábado.
Começou, então, a maquinar estratégias para garantir que os arruaceiros se extinguissem da rua. Mas como se o líder deles era nada menos do que seu irmão caçula?!?

Sentia-se encurralada. As mãos gelavam, suava frio, entristecia-se sobremaneira. A mente errava. Queria, a partir daquele momento, se vingar da inconveniência dos outros.

Do outro lado, os meninos também maquinavam. Sondavam uma maneira de eliminar a megera da vizinhança, para poderem ouvir sua poluição sonora em paz.

A vizinha do lado, uma senhorinha de 82 anos, com toda a paciência do mundo suportava aqueles pequenos suplícios em prol da manutenção do seu status quo. Não lhe agradava entrar em conflito com ninguém. Também não lhe agradava ouvir aquela música. Estavam encurraladas.

A outra vizinha, uma Senhora garbosa lá pelos seus cinquenta anos, tinha verdadeiro horror a barulho e mais ainda verdadeiro horror a brigas. Não se manifestava a aplacar os rompantes dos dois irmãos em guerra. Até porque era a genitora daquela prole em discordância. Aguardava quieta até que tudo se resolvesse por si só: ou que se amassem, talvez se amassassem. Isso não lhe dizia respeito.
A mulher rabugenta achava que convencer as senhoras incomodadas era sua maior chance de conseguir vencer a guerra, mas era consciente da impossibilidade do fato. As duas compactuantes não se envolveriam de forma alguma em uma guerra, sabiam, infinda. O jeito era, então, convencer os senhores do barulho. E armou uma estratégia.

Numa noite alta, enquanto o irmão ressonava, roubou-lhe o celular na surdina e copiou sua agenda de telefones. Em seguida, de posse dos nomes de todos, achou-os no Facebook bem como o nome de suas namoradas e cruzou as informações com as da agenda de telefones. Começou, então, uma operação - tarefa de ligações. Ligou na casa de cada um deles e falou com suas mães, suplicando pela volta dos seus silêncios sabadinos. Compreendeu que as senhores mães daqueles barulhentos os haviam empelido a ouvirem seus cantos ruidosos em outros lugares e que, por isso mesmo, não os queriam de volta em seus momentos de sossego.
A estratégia furada deu vazão à grande ideia: infernizar a vida das namoradas. Passou, então, a ligar para as moçoilas, inventando todo tipo de intrigas: traições, rodadas de jogo, fugidinhas, mensagens eletrônicas, recados com perfil fake nas redes sociais.... foi se profissionalizando na arte de atormentar namoradas e separou um a um os casais enamorados cujo namorado se estacionava em sua casa nos sábados à tarde. Os namorados, temendo a solidão, passavam agora suas tardes grudadinhos nas salvadoras da paz da senhora-encrenca. E o irmão ficou sem amigos.

Ao comentar com a cunhada sua estratégia na saga em busca do silêncio, tal foi sua surpresa quando esta, em agradecimento, lhe confidenciou que fizera de tudo para o namorado se livrar dos amigos, sem sucesso, nos sábados à tarde. Ficou agradecida. A megera, então, sentiu-se mestre em pequenos gestos de crueldade. Embora com uma felicidade eternecida pelo silêncio conquistado, já pensava em outras malvadezas para lhe tirar do marasmo da rotina...





Sábado, Abril 28, 2012

Honestidade Surpreendente


Gesto incrível.

É interessante perceber como as pessoas nos surpreendem, positivamente.
Sou uma pessoa aérea, perco-me em bate-papos e, com uma boa conversa, acabo também perdendo minha visão periférica. Isso já me trouxe muitas complicações. Meu documento de Identidade, por exemplo, já está na quarta via. Pois eis que, numa tarde dessas eu almoçava e batia papo com uma amiga e me esqueci completamente da minha carteira em cima de uma mesa de bar.

Depois do almoço, aquela preguiça e o adiantado da hora. Corremos para nossa aula de mestrado e assistíamos atentamente a tudo e a todos quando uma moça apontou para mim e me chamou à porta. Perguntou se eu tinha perdido a carteira e eu, obviamente disse que não. Quando a moça me mostrou a carteira, quase caio de costas: lá estava lá: intacta, novinha em folha com todos os documentos e (pasmem!), dinheiro.

Recebi um telefonema doido da minha mãe, que já me ligava exaustivamente, perguntando se eu tinha sofrido acidente, sido assaltada ou coisas afins. Comecei a rir da afobação... Foi quando ela me contou que uma moça tinha ligado em casa perguntando por mim e contando que tinha achado a minha carteira.

"Ainda há pessoas honestas nesse mundo", pensei. Pena que o susto foi tão grande que nem cheguei a perguntar o nome da moça, apenas agradeci, mas em pensamento, direcionei toda a luz, paz e agradecimento ao Criador, tendo em vista que o mundo, contrariando a tudo o que se espera, ainda tem conserto.

Segunda-feira, Abril 16, 2012

Respostas.


A morte tenta, como solução covarde para meus inúmeros problemas. Tenta e caçoa de mim, porque sabe da minha covardia. E assim, a tristeza, a solidão e a angústia prevalecem, como que para me lembrar da minha impotência diante dos prazos da vida.



Acariciei meu corpo e tive medo. Medo, vergonha, decepção, discórdia. Lamentei minha condição, meu mazelo, minha falta de beleza e de cuidados. Lamentei ao meu marido minha presença, antes tão alegre e agora tão MPB.



Corri os anos da minha juventude e compreendi que permaneço jovem; mas nas minhas constatações precoces me perdi no tempo, no meu espaço e na geografia. A poesia fugiu de mim e com ela o prazer pelas pequenas coisas.



Corri pras minhas obrigações diárias contando que elas me afastariam dos meus pensamentos. Mas fui infeliz nesta tentativa, já que todos aqueles tormentos me acompanharam. Perdi a fé em mim, talvez tenha perdido a fé em Deus.



Não consigo chorar, nem me lamentar, nem me conformar. Sinto que a minha dor parece ínfima aos outros e, por isso mesmo, guardo-a só pra mim, fato que a ajuda a crescer e transbordar dentro desse meu peito despreparado, mesmo diante do tempo que ela existe.



Fecho os olhos. Fecho os olhos e acredito que a solução dos meus problemas virá assim como eles, sorrateiros, chegaram. Espero que seja assim. Rasgo minhas cartas suicidas, meus atestados de covardia; e tento dormir. Não o sono leve, das pessoas que estão em paz com a vida. O sono turbulento dos depressivos que vagam a noite em busca de respostas.

Incompletude passageira.

Unhas vermelhas,


Lágrimas nos olhos,

angústia.



versos, verbos, todos no passado.

Uma vida inteira passada a limpo.



A sensação de que um dia a vida parou,

e bem ali, naquele fatídico momento,

as esperanças estagnaram com uma sentença angustiante.



Incompleta.

Só, mesmo em multidões de pessoas falantes.



Triste.

Uma tristeza que me acompanha por tanto tempo

que nem sei quem chegou primeiro:

se ela ou eu.

Domingo, Abril 15, 2012

Estrelas da madrugada

Fujo de mim para não enfrentar a minha dor,


Latente,

Em conta-gotas,

constante.

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Vivo e não sei que caminho seguir.

Sei apenas que há um facho de luz,

distante,

que nunca alcanço.



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Acariciei meu ventre seco

e tive pena da minha mediocridade.

Não seriam os filhos do coração

mais-que-amados ainda?

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Sinto que nos desencaixamos mais do que nos completamos.

Sinto que a dor nos abala e nos distancia

Mas mesmo nos seus silêncios

Sei que eu sou a coisa que você mais ama na vida.



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Deus me presenteou com grandes surpresas essa semana:

meu sobrinho querido de 6 anos falou comigo por 20 minutos em conversa bilíngue,

minha sobrinha amada de 4 anos me desenhou ao lado de um anjo e eu me senti protegida,

fiquei amiga de uma grande professora que admirei desde o primeiro dia,

recebi um vídeo do meu amor dizendo que me ama incondicionalmente,

ganhei uma festa de aniversário surpresa que foi realmente uma surpresa,

recebi apoio de duas grandes amigas num momento de desespero.



Deus está em todo lugar,

Mais ainda no meu coração.



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Meu medo de morrer se foi,

agora são apenas tristes lembranças

de dores que não se curaram.



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Deixei pra sofrer depois uma constatação que já tive.

o problema é que as dores não foram embora.

Ao contrário, elas estavam ali,

se concentrando, pra me atacar.



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Olho pro lado e vejo você dormindo

e me pergunto:

como pode ele dormir tão bem

enquanto ecoam sobre nós

uma dor latente

transformadora das nossas vidas?